Enciclopédia dos Povos Originários · Norte

Jaraqui

Língua Portuguesa · Rio Tapajós — Santarém, Pará

~400 pessoas Estado: PA Região: Norte ⚑ Povo Ativo
Dados do Povo
LínguaPortuguês (língua original perdida; revitalização em curso)
População~400
EstadoPA
RegiãoNorte
TerritórioRio Tapajós e afluentes — Santarém, Pará
Ressurgimentoanos 2000
Rio centralRio Tapajós
StatusAtivo
História e Resistência

Jaraqui

Os Jaraqui são um povo do Rio Tapajós que carrega num nome a memória do rio: o jaraqui é um peixe de escamas douradas e carne saborosa que os pescadores do Tapajós conhecem desde antes de qualquer mapa colonial — e que os Jaraqui, como povo, reivindicam como parte de sua identidade. Habitam comunidades às margens do Tapajós, no município de Santarém, e ressurgiram como povo nos anos 2000 num processo que as lideranças descrevem como o reconhecimento do que sempre esteve ali: a relação com o rio, os modos de pescar, as histórias dos mais velhos, os nomes de lugares em língua que o tempo apagou do cotidiano mas não da memória.

A história dos Jaraqui é inseparável da história dos povos do Tapajós — um rio cujos habitantes indígenas foram sistematicamente aldeados, escravizados, catequizados e declarados extintos ao longo de três séculos de colonização. O ciclo da borracha, as frentes de gado e a expansão da soja sobre os cerrados do entorno do Tapajós foram capítulos dessa história longa de pressão. Os Jaraqui sobreviveram nessa história não apesar de permanecerem no rio, mas por causa disso: o Tapajós é um sistema tão produtivo e tão extenso que sempre ofereceu margem de refúgio para quem sabia ler suas águas.

Os Jaraqui integram a Aliança dos Povos do Tapajós — a rede de resistência que une Borari, Arapium, Maytapu, Tupaiú e outros grupos do rio na luta contra as hidrelétricas do Tapajós e pela demarcação de suas terras. Essa aliança, construída ao longo dos anos 2000, é um dos exemplos mais organizados de solidariedade interétnica na Amazônia contemporânea — povos que o Estado trata separadamente mas que o rio sempre manteve juntos.

Costumes e Cultura
  • Pesca no Rio Tapajós com tarrafa, linha e matapi — armadilha de cipó para camarão de água doce
  • Conhecimento específico do jaraqui — peixe que nomeia o povo; os Jaraqui conhecem seus hábitos migratórios, profundidades e épocas do ano com precisão que nenhum manual de pesca contém
  • Manejo dos igapós e das praias do Tapajós — uso tradicional do território que preserva a floresta alagável
  • Artesanato de fibras e sementes do Tapajós
  • Luta contra as hidrelétricas como prática política e cultural — participação ativa na Aliança dos Povos do Tapajós
  • Transmissão oral das histórias do rio pelos mais velhos
Instrumentos Musicais
  • Flauta ribeirinha de bambu — instrumento das festas e dos rituais das comunidades Jaraqui
  • Maracá de cabaça — instrumento sagrado dos rituais de cura
  • Percussão sobre canoa — comunicação e ritmo festivo sobre as águas do Tapajós
  • Canto em português com léxico Tapajós — palavras e expressões da língua original preservadas nas músicas dos mais velhos
Espiritualidade

Rituais e Cerimônias

Ritual das Cheias

cerimônia que marca o início da enchente do Tapajós — os Jaraqui celebram a subida das águas com cantos e oferendas ao rio; o igapó que se forma é espaço sagrado de coleta e de relação com os espíritos das águas

Cura com Plantas do Tapajós

o curandeiro Jaraqui usa plantas das margens do rio e dos igapós para tratar doenças físicas e espirituais; o conhecimento das espécies que crescem na fronteira entre a água e a terra firme é o patrimônio mais precioso do curandeiro

Festa do Jaraqui

celebração do peixe que nomeia o povo — realizada na época de maior abundância do jaraqui no Tapajós, com pesca coletiva, partilha comunitária e cantos que narram a relação do povo com o rio e com o peixe sagrado

Gastronomia Ancestral

Culinária Tradicional

🐟Jaraqui do Tapajós — peixe que nomeia o povo; assado na folha de bananeira ou em moqueca com leite de coco; a pesca do jaraqui na época de piracema é o evento alimentar mais importante do calendário Jaraqui
🥥Açaí dos igapós — coletado nas palmeiras das margens inundadas; vinho de açaí é bebida cotidiana e presença obrigatória nas festas
🌿Farinha de mandioca e beiju — produzidos nas roças das margens do Tapajós
🐢Tartaruga e ovos — coletados com técnicas de manejo tradicional que preservam as populações dos quelônios do Tapajós
🍖Carne de caça da floresta ciliar — veado e paca complementando a pesca abundante
Fatos Notáveis

Curiosidades

Os Jaraqui são nomeados pelo peixe — o jaraqui, de escamas douradas e carne saborosa, é um dos peixes mais característicos do Tapajós e nomeia um povo que reivindica essa relação como identidade, não como coincidência

A Aliança dos Povos do Tapajós, da qual os Jaraqui são membros, foi formada especificamente para resistir aos projetos de hidrelétricas no Rio Tapajós — represas que inundariam igapós, praias e territórios tradicionais de vários povos do rio

O ressurgimento étnico dos Jaraqui nos anos 2000 aconteceu simultaneamente ao de outros povos do Tapajós — Borari, Arapium, Maytapu — numa dinâmica em que a afirmação de um grupo fortaleceu a afirmação dos outros

O Rio Tapajós tem a cor azul-esverdeada característica que o distingue da maioria dos rios amazônicos; os Jaraqui conhecem esse rio por dentro, com um saber de navegação, pesca e manejo que nenhuma universidade ensina

As praias brancas do Tapajós na seca são espaços sagrados e cotidianos para os Jaraqui — onde as crianças crescem, os peixes desovam e as tartarugas fazem ninhos

Vocabulário

Língua Jaraqui

Jaraquio peixe e o povo — um nome que é também um vínculo entre identidade e ecossistema
Tapajóso rio da identidade — azul, claro, imenso; o eixo de tudo que os Jaraqui são
Igapófloresta alagada — espaço sagrado e produtivo que as hidrelétricas ameaçam
Aliançaa rede de resistência — a solidariedade dos povos do Tapajós como estratégia de sobrevivência
Piracemaa migração dos peixes — o calendário sagrado do rio que organiza a pesca e os rituais
Vozes do Povo

Lideranças e Referências

Lideranças Jaraqui das comunidades do Tapajós — guardiões do rio e da identidadeAliança dos Povos do Tapajós — rede de resistência contra as hidrelétricasCurandeiros das margens — detentores do saber medicinal dos igapósISA e FUNAI — parceiros na documentação e proteção dos povos do Tapajós
Localização

Território Tradicional

Rio Tapajós e afluentes — Santarém, Pará

Fonte: FUNAI — Fundação Nacional dos Povos Indígenas · Coordenadas aproximadas para fins pedagógicos.