Língua Portuguesa · Rio Tapajós — Santarém, Pará
Os Jaraqui são um povo do Rio Tapajós que carrega num nome a memória do rio: o jaraqui é um peixe de escamas douradas e carne saborosa que os pescadores do Tapajós conhecem desde antes de qualquer mapa colonial — e que os Jaraqui, como povo, reivindicam como parte de sua identidade. Habitam comunidades às margens do Tapajós, no município de Santarém, e ressurgiram como povo nos anos 2000 num processo que as lideranças descrevem como o reconhecimento do que sempre esteve ali: a relação com o rio, os modos de pescar, as histórias dos mais velhos, os nomes de lugares em língua que o tempo apagou do cotidiano mas não da memória.
A história dos Jaraqui é inseparável da história dos povos do Tapajós — um rio cujos habitantes indígenas foram sistematicamente aldeados, escravizados, catequizados e declarados extintos ao longo de três séculos de colonização. O ciclo da borracha, as frentes de gado e a expansão da soja sobre os cerrados do entorno do Tapajós foram capítulos dessa história longa de pressão. Os Jaraqui sobreviveram nessa história não apesar de permanecerem no rio, mas por causa disso: o Tapajós é um sistema tão produtivo e tão extenso que sempre ofereceu margem de refúgio para quem sabia ler suas águas.
Os Jaraqui integram a Aliança dos Povos do Tapajós — a rede de resistência que une Borari, Arapium, Maytapu, Tupaiú e outros grupos do rio na luta contra as hidrelétricas do Tapajós e pela demarcação de suas terras. Essa aliança, construída ao longo dos anos 2000, é um dos exemplos mais organizados de solidariedade interétnica na Amazônia contemporânea — povos que o Estado trata separadamente mas que o rio sempre manteve juntos.
cerimônia que marca o início da enchente do Tapajós — os Jaraqui celebram a subida das águas com cantos e oferendas ao rio; o igapó que se forma é espaço sagrado de coleta e de relação com os espíritos das águas
o curandeiro Jaraqui usa plantas das margens do rio e dos igapós para tratar doenças físicas e espirituais; o conhecimento das espécies que crescem na fronteira entre a água e a terra firme é o patrimônio mais precioso do curandeiro
celebração do peixe que nomeia o povo — realizada na época de maior abundância do jaraqui no Tapajós, com pesca coletiva, partilha comunitária e cantos que narram a relação do povo com o rio e com o peixe sagrado
Os Jaraqui são nomeados pelo peixe — o jaraqui, de escamas douradas e carne saborosa, é um dos peixes mais característicos do Tapajós e nomeia um povo que reivindica essa relação como identidade, não como coincidência
A Aliança dos Povos do Tapajós, da qual os Jaraqui são membros, foi formada especificamente para resistir aos projetos de hidrelétricas no Rio Tapajós — represas que inundariam igapós, praias e territórios tradicionais de vários povos do rio
O ressurgimento étnico dos Jaraqui nos anos 2000 aconteceu simultaneamente ao de outros povos do Tapajós — Borari, Arapium, Maytapu — numa dinâmica em que a afirmação de um grupo fortaleceu a afirmação dos outros
O Rio Tapajós tem a cor azul-esverdeada característica que o distingue da maioria dos rios amazônicos; os Jaraqui conhecem esse rio por dentro, com um saber de navegação, pesca e manejo que nenhuma universidade ensina
As praias brancas do Tapajós na seca são espaços sagrados e cotidianos para os Jaraqui — onde as crianças crescem, os peixes desovam e as tartarugas fazem ninhos
Rio Tapajós e afluentes — Santarém, Pará
Fonte: FUNAI — Fundação Nacional dos Povos Indígenas · Coordenadas aproximadas para fins pedagógicos.